Professora é expulsa de voo após se recusar a despachar mochila; atitude provoca indignação entre passageiros e entidades antirracistas

Vídeos gravados por passageiros mostram Samantha Vitena sendo abordada por policiais federais. Os agentes foram chamados pela tripulação, com o conhecimento do comandante, porque ela estaria causando perturbação a bordo.

Professora é expulsa de voo após se recusar a despachar mochila; atitude provoca indignação entre passageiros e entidades antirracistas
CREDITO:G1

Uma passageira foi expulsa de um voo na noite de sexta-feira (28), depois de se recusar a despachar uma mochila. A atitude provocou indignação de entidades antirracistas.

O incidente foi em um voo da Gol que sairia pouco depois das oito da noite de Salvador para São Paulo. Vídeos gravados por passageiros mostram Samantha Vitena sendo abordada por policiais federais. Os agentes foram chamados pela tripulação, com o conhecimento do comandante, porque Samantha estaria causando perturbação a bordo.

No vídeo, dá para ouvir passageiros indignados com a ação contra Samantha. Ela conta o que não queria despachar a mochila, porque levava um computador.

"Se eu despachasse o meu laptop, iria ficar aos pedaços. Os comissários não moveram um dedo para me ajudar. Quem me ajudou foi esse senhor e essa senhora, que em três minutos a gente conseguiu dar um jeito e colocar a minha mochila. Agora vêm três homens para me tirar do voo, sem falar o motivo. Eu perguntei: 'qual é o motivo que você está me tirando desse voo? Ele disse que não vai falar e que se eu não sair desse voo, ele vai pedir para todo mundo sair e que eu estou desobedecendo e que eu estaria cometendo um crime", disse Samantha.

Depois que saiu do avião, Samantha foi conduzida até o departamento de Polícia Federal no aeroporto. Ela foi ouvida por um delegado, que fez um termo circunstanciado de ocorrência, o procedimento usado em crimes de menor potencial ofensivo.

Samantha vai responder por desobediência à ordem legal de funcionário público porque, teria inicialmente se negado a acompanhar os policiais federais. Em seguida, ela foi liberada e na madrugada deste sábado (29) embarcou em outro voo da Gol para São Paulo.

Samantha Vitena tem 31 anos e mora em São Paulo. Estava em Salvador a trabalho. Ela é coordenadora educacional da ONG Instituto Identidades do Brasil, professora e aluna de mestrado em bioética na Fiocruz.

O advogado de Samantha disse que os comissários foram avisados que a mochila tinha um computador e que as próprias companhias não recomendam o despacho desse tipo de material. Que em nenhum momento Samantha quis desobedecer às autoridades, que apenas questionou o motivo para estar sendo retirada. E disse que vê racismo estrutural na abordagem a Samantha.

“O racismo ele é um indutor, principalmente na sua perspectiva estrutural, ele define com cada grupo humano será tratado. A senhora Samantha é uma mulher negra que foi vista como potencial pessoa perigosa e perturbadora da paz. Fica o questionamento: se ela fosse uma mulher branca que estivesse questionando se a mala dela poderia ser alocada aqui, ali, ou se poderia ser negociado esse espaço, será que ela seria considerada uma pessoa perigosa a ponto de a Polícia Federal retirá-la do avião? Por um compromisso estrutural, nós não podemos nos furtar de provocar esse debate”, disse Fernando Santos, advogado de Samantha.

A jornalista Elaine Hazin estava no voo e gravou toda a ação. Segundo ela, Samantha foi vítima de racismo.

 

“Eu vi uma cena lastimável absurda, de racismo contra uma mulher preta, dentro de um voo da Gol, presenciada e feita por toda a tripulação. Logo que entrei inclusive, o voo estava muito cheio, tinha uma mulher branca na minha frente, que estava com três bagagens de mãos, ela acomodou as três bagagens de mão dentro do compartimento, mesmo a tripulação falando: ‘Senhora, bote uma bagagem embaixo do assento’. E ela falou ‘não vou colocar, vou colocar em cima’. E essa senhora colocou as três bagagens dela em cima. E a mulher negra não colocou nenhuma", conta.

 

A Gol divulgou uma nota dizendo que "mesmo com todas as alternativas apresentadas pela tripulação, a cliente não aceitou a colocação da bagagem nos locais corretos, que lamenta os transtornos, mas reforça que a acomodação das bagagens devem seguir as regras, sem exceção.

Na nota, a Gol não mencionou o fato de a mochila de Samantha já estar acomodada no bagageiro superior - junto com as malas de outros passageiros - na hora em que ela foi retirada do voo.

O episódio provocou forte reação nas redes sociais e em instituições de defesa dos direitos humanos e igualdade racial.

A Fiocruz, onde Samantha faz mestrado, disse que ela foi vítima de racismo e violência contra a mulher. Que nem Samantha, nem nenhuma mulher negra deve passar por momentos como este. E que todos os dias a sociedade brasileira deve reafirmar compromisso com a democracia e a justiça racial e de gênero.

O Ministério da Mulher declarou em uma rede social que a cena demonstra racismo e misoginia e pediu providencias à companha aérea e à Polícia Federal.

A Associação Educafro classificou a atitude como repugnante, inadmissível, decorrente do mais acintoso e declarado racismo. Que esse tipo de comportamento afeta a todas as pessoas negras, que correm o risco de serem submetidas à mesma humilhação, se a empresa não for obrigada a mudar seus procedimento e que estuda providências legais para o caso.

A Gol divulgou um novo comunicado em que diz que lamenta imensamente a experiência da Samantha no voo, que segue apurando os detalhes do ocorrido, e que a companhia aérea não tolera qualquer atitude discriminatória.

A Secretaria Nacional do Consumidor, ligada ao Ministério da Justiça, disse que já notificou a Gol para prestar explicações.

G1